Ventania arrasta o chão, move tudo.
Poeira que dissolve, agora estou.
Às vezes o trânsito da vida vai insignificando tudo.
Ventania arrasta o chão, move tudo.
Poeira que dissolve, agora estou.
Às vezes o trânsito da vida vai insignificando tudo.


Pelo buraco na parede, salto na realidade que passa.
Nessa fresta, a luz das cores inunda a curiosidade.
Em frente à janela perdida em sua abertura, há milhares de outras olhando pra cá.
Que escrevem paisagens alheias como as que são desenhadas daqui.
Corte em qualquer parede, que recorta um universo cortante...
Fere os sentidos, abre chagas na pele da sensibilidade.
Realidades que se sobrepõem incessantemente.
Correnteza de imagens, texturas...
Espetáculo devorando, incompreendido em movimento.
Que por vezes inventa estátuas e sons de sinos pontuais.
Fenda estática que me percorre, e empurra para direções desorientadas.
Buraco na parede que salta em mim, quando não passo.
Absorve traços e tonalidades de tudo
Janela que engole paredes.
Maicon Barbosa
Lembrança
Preciso de um desejo de resposta
Necessito da vontade de querer
Tenho sede da bebida que não gosto
Peço esmola daquilo que é meu
Sou metade do que sinto
A outra metade... não cabe em meu corpo
Recebi uma carta escrita por mim
A saudade é grande, mas eu não posso estar comigo agora
Retrocedo anos até chegar aqui
Sou antepassado de sobrinhos filhos e netos
A minha biografia é uma peneira
E por mais que eu a escreva... é uma peneira
E por mais que eu a viva... é uma peneira
Sempre erro de conto...
Nunca encontro... a branca de neve
...Rapunzel...
...Lisbela
Sempre erro de conto...
No fim das contas
Fica apenas a lembrança
De uma vida mal passada
Com fritas e cebola.
Por: W. Santos
Você é um encanto de maravilha;
A música que toca e mim toca;
A linda rosa que ganhei;
A lua cheia que admiro;
O anjo que imagino;
A maravilha do amor.
O teu corpo é de desejo.
Pessoa encantadora para ser
Correspondida no amor
Como Deus a fez:
Simples, sensível, amável, meiga,
Angelical, ardente, quente, serena,
Selvagem, amante, doce, suave,
Passiva, total.
CABRAL, Reinaldo Ferreira.

Linearidade argumentativa, coesão, encadeamento lógico, coerência, precisão lingüística, racionalização dos conteúdos; são algumas máximas frequentemente enunciadas e associadas – quase que automaticamente – às maneiras de pensamento. Aqui estamos nós, diante do suposto maior patrimônio da civilização: o “pensamento racional”. Essa perspicaz junção moralizante que nos amordaça, disfarçada de redundância!
Parece que a necessidade de ordenar as coisas se alastra e reformula-se com uma rapidez assombrosa. Desde que as bases da racionalidade começaram a ser lançadas – mais especificamente, porém não unicamente, nos momentos iluministas que não se prendem a uma determinada data ou lugar – a vida humana tem se orientado por valores transcendentes que passaram a direcionar toda a existência, delimitando rigorosamente as espacialidades permissíveis, as intensidades saudáveis, as maneiras corretas, as quantidades desejáveis, as temporalidades adequadas, os produtos eficientes... Os dogmas racionais, infalíveis na missão de modelar imponentes e destemidos seres do conhecimento verdadeiro, incorporam novas revitalizações na contemporaneidade e continuam aliciando multidões de “fiéis céticos”.
A Lógica, com suas diversas aplicabilidades, se transformou – ou provavelmente sempre teve essa função – na grande autoridade que determina quais são os padrões aceitáveis de vida. É como se toda a existência, necessariamente, precisasse ser lógica, racional, planejada e organizada. A busca estafante da Ciência por leis universais dos fenômenos, sejam eles objetivos ou subjetivos, tem produzido explicacionismos que, ilusoriamente, ambicionam demonstrar a verdade de uma coisa ou acontecimento através do estabelecimento de sistemas teoricamente previsíveis e imutáveis, que funcionariam segundo regras específicas.
O repúdio extremado às contradições, em suas muitas possibilidades de manifestação, funciona como uma espécie de concretização dessa normatização do pensamento. É perceptível um certo consenso proibitivo implícito, presentes em diversos ordenamentos humanos, que atua condenando as quebras e desvios nas/das seqüência lógicas discursivas, formais ou não. Se alguém fala de uma coisa de certa forma, parece ficar obrigado a manter aquela mesma idéia por um tempo sem fim, tudo em nome da intocável coerência suprema. É como se, ao emitirmos determinada fala, estivéssemos fazendo uma promessa oculta de não contrariar aquelas palavras futuramente. A aversão àquilo que expressa a diferença e suas pluralizações, ossifica seres hierarquizados, serializados e tristes, que não desejam nada mais que a ordem e o poder.
Esse processo que evita as manifestações não lineares que jorraram e impelem para várias direções, articula-se de forma a impedir a vazão desejante singularizada. Mas os ímpetos criativos, alegres, sempre proliferáveis, podem sim implodir essas atmosferas conformativas que fabricam subjetividades mórbidas, descoladas das potências acíclicas de uma vida não transcendente, e estender outros solos, sempre móveis, onduláveis. O pensamento pode afirmar outras posições para além da cristalização lógico-racional das coesões demasiadas. É possível devir a diferença, reinventar relações, rearranjar temporalidades e criar territorialidades. As atividades-pensamento podem funcionar plasticamente, de maneiras moduláveis, desligado-se dos ideais de forma, de perfeição, das dialéticas sempre cíclicas, e se abrir às efemeridades desejantes fortuitas, acidentais, metamorfoseando-se incessantemente, espalhando/agregando partículas dos mais inimagináveis territórios existenciais.
"Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento, assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade..." (Alberto Caeiro)
ESPACIALIDADES OUTRAS DE PRODUÇÃO...
MULTIPLICIDADES (DES)FOCAIS...
A idéia de criar esse espaço escorregadio de passagens e transitações incessantes surgiu a partir de alguns encontros que propiciaram discussões com várias intensidades, em diversos terrenos do pensamento. Ramificações começaram a se produzir, e é desse oceano de pensamentos inquietantes que emerge esse espaço virtual. Vários processos, sempre inacabados, de criação de pontos de convergência, ou divergência, das multiplicidades pensantes, afetivas, perceptivas, artísticas, inventivas... Algumas produções de desejo, atmosferas pluralizáveis. Espacialidades de criação e afetivação de tudo.
VIDEOATIVIDADES
PINCÉIS ATÔNITOS
MULTIPLICIDADES (DES)FOCAIS...
RUÍDOS E ALGUNS OUTROS SONS...