.

terça-feira, 9 de junho de 2009

... a feminina

Ela tem uma gestualidade própria. Afirmação do corpo feminino, do corpo extremamente forte que só a feminilidade pode expressar. A força da vida feminina é sempre outra, indecifrável, inatingível... Ela tem graus de intensidade que não se pode alcançar. A questão nunca se refere ao alcançar; não é isso. Aproximar-se, fronteirar, misturar os ethos sem alcançá-los. Os gestos dela abrem fendas sem fundo nos cotidianos que a povoam. A feminina vai constituindo uma vida de extrema beleza, que escoa variavelmente. Em todo o tempo está vazada. Rompe diques e represas. Sangra eternamente. A sua força é a da dispersão. Essa beleza se espraia em si mesma, e alastra outros mundos que encontra no caminho. Oceanos desconhecidos. A diferença sem mediações. Não se trata de anatomia. O que pulsa são as areias movediças. Jeito de mulher.

Maicon Barbosa

sábado, 6 de junho de 2009

PLATONICAMENTE

O meu amor por você

É uma loucura

Que não cabe

Nem mesmo

Na minha cabeça

Mas eu gosto de vivê-la

Platonicamente ...


Te vejo com outro

Mas aqui dentro, és minha

Danças com outro

Mas aqui dentro, comigo

Diabos!!

Estas aqui ou algures?



Yon, Platonicamente, Macedo ...

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Pirroenaicos



Se eu ao menos soubesse o que acontece, ou o que na verdade está acontecendo comigo.
Acordo de madrugada, vindo de pesadelos surreais, freudianos, terríveis. Como se a minha vida estivesse sendo passada a limpo no meu inconsciente perdido. Como se todas as noites, eu marcasse um encontro com tudo que deixei pendente, para resolver amanhã, no ano que vem, ou na próxima encarnação.
Se eu ao menos tivesse a pedra filosofal dos pensamentos, o fogo da consciência que transforma toda distração em atenção.
Mas eu não tenho nada disso. Na minha cabeceira encontra-se o desespero humano de Kierkegaard. Na minha cabeça, o meu próprio desespero, por saber que a vida não vai a lugar algum e que todos os ídolos são apenas pedras. Pela sensação de que eu acabo juntamente com os segundos do meu relógio, que o tempo é um demônio malvado chamado morte, que consome as minhas células e escarnece da minha esperança.
Parei em um lugar qualquer da história antiga. Numa dessas escolas de mistérios que tanto encontravam-se no oriente. Acho que era um mosteiro essênio. Em sonho, fui recebido pelos seus membros, que me disseram estar ali o homem que comandaria a ideologia maior do mundo. Não quis conhecê-lo, para não cair na tentação de assassiná-lo. Mas vivo desejando coisas que há tanto se passaram, talvez por temer o que se passa agora. Não acredito em nada. Não confio em ninguém. E também não vou ao cinema.
O fundador do ceticismo foi Pirro. Ele não deixou nenhum escrito, mas legou-nos essa filosofia dos honestos, da qual Agostinho combateu com veemência. Isso foi há muito tempo, mas ainda hoje na minha cabeça, nos meus sonhos, Pirro e Agostinho continuam seus debates infernais. Por não terem se encontrado em vida , pessoalmente, eles marcam sínodos nos meus sonhos. E o que eu posso fazer é assisti-los estupefato.

Yon Macedo

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Nord-est-in-os: meninos cosmopolitas



Alguns meninos do nordeste querem a vida! Não são moralistas que pregam uma pureza da cultura. Para eles nunca houve uma cultura pura no nordeste. Pensam que esse lugar de terra seca sempre foi híbrido, misturado, miscigenado... Sotaques se embaralham nessa grande mestiçagem. Eles viram o acordeom europeu ganhar novas gingas, e o for all forrobodó ensaiar os passos no chão batido das casas de pau-a-pique. Outros ritmos, outras cores se costuraram. Esses meninos desejam o excesso, em excesso... Eles não vêem problema algum em misturar as línguas, os sons, os cheiros, os saberes e sabores. Rabecas com samplers, sanfonas com guitarras futuristas, alfaias com pianos enlouquecidos.
Eles não caem na armadilha do purismo/puritanismo. Gostam de pandeiros, triângulos, orquestras sinfônicas, jazz de várias cores, distorções pesadíssimas, cavaquinhos, berimbaus... Literatura de cordel e Dostoiévski estão em suas estantes oscilantes de vara. Eles não têm problemas com estrangeirismos. Nasceram num lugar estrangeiro, inventado, arredio, mutante. Gostam de rapadura, fricassé, macaxeira assada, vinhos... Gostam de feijão com arroz e carne de sol, bebidas fermentadas, fubuias, e outras cositas más. Eles não desejam uma coisa só! Cresceram aprendendo ISSO com a vida. Eles passeiam pelas feiras-mundo nordestinas. Viram muitas coisas nessas andanças de menino. Têm “fome de tudo” e não temem as emboladas. São gourmets sofisticados, bruxos de caldeirões furados, que vazam por todos os lados sem apagar o fogo de lenha elétrica... Eles viram a dor, o chicote, o sangue e a morte também. Viram gente girando a moenda e acorrentada pelo pescoço feito bicho. Às vezes esses meninos sentem medos, choram, gritam, batem o queixo e se desesperam... São os outros tons da vida, eles não os desprezam.

Maicon Barbosa

sábado, 14 de março de 2009

...friezas debaixo do sol


Após um soco no estômago, desferido pelo vigor do acaso, estou num ponto de ônibus, em algum lugar do mundo. Não sei se esse espaço acontece numa data. Acho que é uma data imprecisa, imemoriável. Talvez não, nunca. Observo algumas pessoas que estão por perto; todos sempre se entreolham estranhamente nesses instantes. Não há conhecidos. Os rostos assumem expressões cerradas, com densidades quase insuportáveis. Sinto o frio vindo das faces, sobretudo da minha. Um gelo glacial, meio lívido, que ameaça derreter às vezes. O asfalto ondula sob a dureza do sol que inunda. Carros passam. Outros bichos também. Nada de ônibus. Certamente ele fora abduzido! Olhei e vi coisas que acontecem debaixo do sol. As estátuas de sal também estavam lá, salgando.


Maicon Barbosa

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Você representa para mim
Tudo de pior que o moralismo idiota conseguiu fazer com as pessoas até hoje
Você para mim é o pináculo de anos e anos de repressão do riso
E o seu olhar inquiridor nada mais é que uma inveja implícita
De não ter coragem suficiente para viver a vida da forma que eu vivo
Sem preocupar-me com opiniões alheias
Você vai se arrepender amargamente por esta sua vida medíocre e previsível
Você vai tentar em vão buscar as noites de sexta e sábado perdidas na frente de uma televisão
Mas não vai encontrá-las simplesmente por que elas perderam-se no tempo
A sua vida perdeu-se no tempo
Enquanto você parava para me criticar
Enquanto você parava para me reclamar e dizer o quanto eu estava errado
É uma pena que minha felicidade incomoda-te tanto
Você poderia participar dela
Ao invés de ficar na beira da estrada vendo a vida passar
Você se protege da tristeza
Esquivando-se da felicidade
Que troca mais macabra
Nada por nada
Você é o sucesso de todos os padres e pastores do mundo
Dessas pessoas que se dizem conhecedoras de deus
Com você elas conseguiram os seus objetivos
Que é assustar as pessoas
Você se diz “temente a deus”
É uma pena que você pense assim
Você teme deus e teme a vida e teme a morte
Mas por favor
Não faça da sua covardia a minha tristeza
Pegue toda tralha de textos e escrituras que você trás na cabeça
E vai ser triste bem longe de mim
Por que a minha vida é a minha vida
Você não tem o direito de estragá-la
Com o que você acha que é certo ou errado
Permita-me andar com minhas próprias pernas
Saia do meu caminho agora
Por favor ...

YON

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Inflamagens


Pressentimentos estranhos me tomaram naquele dia. Não os compreendia muito bem, mas eles pulsavam alegremente em mim com variações que me desorientavam totalmente. A tarde era quente. Eu estava sentado sozinho, um pouco distante da entrada. Era como se estivesse esperando que alguma coisa muito importante acontecesse, apesar de não ter nenhum compromisso marcado para aquele instante. Pessoas circulavam por entre a música que inundava o lugar. Uma música extremamente agradável e baixa.


Estava mergulhado num quadro em minha frente quando ela – decidida e tímida – rompeu o limiar entre o dentro e o fora. O seu olhar sereno, terrível, saltou em mim, mas, numa fração de segundo, desviou-se. Lançou-se ao chão com ímpeto. Aos poucos foi percorrendo o assoalho que se estendia risonhamente. Levantou-se com uma lentidão lasciva, e contemplou com solenidade o espaço. Agora ela deslizava suavemente, encantadoramente. Sentou não muito perto. Desde a sua chegada, eu não conseguia parar de fitá-la.


O universo inteiro se condensou naquela paisagem feminina, que me arrastava silenciosamente. O seu delicado rosto aveludado moveu quase que imperceptivelmente. Ela me cumprimentara. Retribui o seu generoso gesto com muito cuidado, pois não queria demonstrar a imensa felicidade que agora irradiava por todo o meu corpo. Mas eu sabia que ela havia percebido tudo. Durante aqueles eternos instantes que se sucederam, uma vigorosa dança instalou-se entre nós. Os olhos dela e os meus passeavam por todos os elementos daquele espaço, mas desejavam se encontrar com todas as forças. E o faziam freqüentemente, com uma grande intensidade e rapidez. Isso já era suficiente para que ambos se sentissem plenos e cheios de vida.


Maicon Barbosa

sábado, 24 de janeiro de 2009

Atropelos


A cidade me atropela. Tira-me o fôlego. Faz explodir milhares de tremores, indecifráveis, sísmicos, velozes. O que se passa no corpo seria completamente indizível, se não existisse uma certa habilidade para simular os acontecimentos, para produzir outros. Azáfama. Matilhas ladram. Ladrões. A cidade nos engole com sua multiplicidade, e descer por essa garganta vivaz não é nada confortável. Nada de turismos asséptico
s. O que irrompe aqui é a transmutação do viajante em nativo. Transmutação sempre temporária. Tornar-se um daqueles/esses. Virar o lugar. Ser absolvido pelas pulsações do lugar. Não basta olhar a paisagem de longe, por detrás de vidros homeostáticos. A cidade alheia e arredia, por vezes se coloca de tal maneira no corpo, que compreendemos muito bem, nesses momentos, a vida de um vidente. Ver o além. O além dos além. Não um além transcendente, cujos pés nunca tocaram o solo, e nunca tropeçaram numa poça de lama. Trata-se de um além estético, que pulula nas experiências artísticas e estilísticas do corpo. Ser vidente. Isso não é fácil ou tranqüilo. Sentir os universos insignificáveis que se deslocam nos movimentos cotidianos da urbe. Estranhamento. Isso ativa o corpo, fragmenta vitrificações e congelamentos mortificantes. Continuo sem ar. Respiro tudo agora. Não me contento apenas com o oxigênio. Quero as poluições; todas elas. O suor respira tudo. O delírio. Gente passa, anda, corre, morde, pula, cheira, e olha prá cá. Uma multidão irreconhecível me povoa. A lente da câmera sanguínea salta de repente. O que há agora é um olho/corpo onipresente. Onipresença desse presente, a única vivível. Sinto tudo. A vida gira e despedaça as calmarias. Gritei há alguns minutos. Gritos desesperados. Não sei se ouviram, mas os urros foram altos, estridentes. Vibraram por todos os poros. Continuam vibrando. Os poros se dilatam. Absorvem os climas. O lugar fala em mim. Ele é quem escreve esses emaranhados. Ele é desordenado. Anda, subvertendo. O enxame de línguas estranhas segue mordendo, arrancando pedaços. Só há dentes no corpo. Dentes das línguas estranhas e animalescas.

Maicon Barbosa

domingo, 11 de janeiro de 2009

**************************************************

Decidi abandonar todas as ilusões que eu ainda tinha
Quanto a esse amor, quanto a nois dois
Decidi parar de sofrer e de alimentar esse câncer
Que há algum tempo me devora
Essa saudade louca que eu tenho de tudo que vivemos
Decidi ignorá-la
A ilusão que eu tinha da sua pessoa
Decidi que não vale mais a pena cultivar
A pessoa que eu quero só existe nos meus sonhos
A paixão que eu imagino nunca existiu tal como a vejo hoje
Tudo é pontencializado
Pela saudade que eu sinto e que decidi
Abandonar para sempre...

Yon

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Uma tarde-noite-madrugada-quase-amanhecer do fim de algum ano.


Alguns instantes são eternizáveis! É isso que pulsa nesse momento, nesse esboço de alguma coisa, de sei-lá-o-quê. Encontros acidentais. A amizade é – em certa medida – um universo de acidentes, colisões inesperadas, às vezes até premunidas, que colore insistentemente a vida. Os elementos dessa atmosfera fortuita misturam-se numa profusão indecifrável. Radiohead, bebidas fermentadas, Nação Zumbi, biscoitos sabor churrasco, conversas sobre política, Led Zeppelin, petiscos penosamente assados, José Saramago, “forasteiros” daqui, prosas sobre filosofia, Chico Buarque, devaneios em relação à vida sentimental, estridentes gargalhadas, balbucios sobre cinema, nostalgias diversas... E isso ainda não é tudo. Gaguejos sobre a morte, Kafka, narrativas sobre os ossos e ócios do ofício, o desejo de ler Jack Kerouac, piadas nordestinas, (por vezes a massa sonora entupia os ouvidos) Virginia Woolf, festas passadas e futuras, Afonso Manta, divagações sobre amigos ausentes. Ainda não é tudo... mas não é necessário estender demasiadamente a lista. Todas essas coisas estavam no encontro, naquele acontecimento de uma tarde-noite-madrugada-quase-amanhecer do fim de algum ano. Ou será começo? Prossigamos. Amigos se encontrando casualmente: haveria outra feracidade como essa na vida? Parece que as melhores comemorações são as que não têm motivo algum! (Talvez continue...)


Maicon Barbosa