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sábado, 20 de novembro de 2010

Fragmentos de Loucura 2

Foi uma viagem diferente

O trecho? Já o conhecia muito …

Mas dentro de mim o mundo balançava

Ao meu lado, personagens figurantes

A minha frente? Ela, a vida …

Que eu não queria mais!


O que eu estava fazendo ali?

Não sei …


O carro comia os quilômetros

E a tristeza devorava o meu ser...

Tantas perguntas

Nenhuma resposta

Mas vou continuando a viagem


Será que abri o livro errado?

O que eu quero não encontro aqui

Vai anoitecendo

Eu quero parar

Eu quero pular

Eu quero viver

E quero morrer!

Paradoxo.


O que eu estou fazendo aqui?


De repente, a loucura...

A salvação!

No meio do nada eu desço do carro

E fujo para o meio do mato

Para não mais voltar.

Yon

sábado, 23 de outubro de 2010

Qualquer coisa

Tanta coisa desimportante é escrita por esses dedos cumpridos e um pouco estranhos. Insisto em borrar a brancura. São borrões tão sem graça, que não dizem nada. É como se falasse sem dizer absolutamente nada. Uma espécie de mudez escancarada, que salta pela garganta a fora. Mas será que há motivos pra escrever alguma coisa? Essa coisa de motivos não funciona pra mim. Geralmente, me perco durante alguma coisa que escrevo. Talvez seja isso mesmo: escrevemos para nos perder, pra sumir. Pode ser isso. Agora mesmo, já não sei por que comecei a traçar essas árduas linhas. Estava estirada na cama, ouvindo um certo minimalista, e um tremor percorreu o corpo todo, e antes de pensar qualquer coisa, estava eu sentada digitando palavras aturdidas. Há um mistério nessas coisas de escrever. Um mistério insondável pra mim. Talvez, um segredo. Essas coisas podem ser bonitas se não lhe dermos um tom muito grave. Abismos chamam o tempo todo. Eles precipitam a vida com cheiros confusos. As náuseas são coisas que põem os dedos para trabalhar. Sei lá por que, mas vontade de escrever também vem com elas. Mas o que é que digo mesmo?

Ana Laura Navegueiro

domingo, 17 de outubro de 2010

meio de noite


O som que retinia na madeira velha e seca incitava uma nova embriaguez conhecida. Os graves incendiando a noite de sábado, agora vazia de gente. Aquele corpo de cordas trêmulas e mal tocadas se grudava à pele embebida em desejo. Música! Palavra alguma conseguiria se aproximar daquele instante marginal, em que o corpo ébrio só queria deitar no chão frio. Solos e solidões embalam essa noite transgredida. Solos que arranham a alma. Solidões povoadas de tantas coisas... tantas e tantas gentes, cheiros, esquecimentos. O som de piano alastra, queima as pestanas do escuro. Quem ousaria dizer o que se sente? Como é que se coloca aquilo que esfola a pele num papel?

maicon barbosa

sábado, 16 de outubro de 2010

Fragmento

A mesa posta e farta. Sorrisos contidos iluminam a antes obscura sala. A loucura, doravante, não é mais convidada a temperar a ceia. Agora, o asseio de tudo é percebido na limpidez das palavras, no comedimento do ar que circula, circunda e adentra no lar. Tudo cheira comida e austeridade. Nada trás saudades dos incensos insensatos que outrora invadiam as narinas e aprisionavam o coração.



Yon

sábado, 11 de setembro de 2010

Lágrimas afiadas de uma incerta moça

A noite de ontem não passou ainda. Uma menina se desmanchava em lágrimas. A beleza ficava mais bonita do que nunca. Essa menina não era muito afeita aos afoitos. Olhinhos sapecas que brilhavam na noite barulhenta. Eles faziam um silencio encantador. Língua afiada feito navalha de malandro das antigas. Vestido branco que balançava com o vento. Sensações amorfas nos tomavam de súbito e passavam deixando rastros alegres. Outra vez as lágrimas, que transbordavam seu rosto e seu corpo vazio e pleno de tudo. Ela não queria nada, e falava de Pessoa com uma vontade dos diachos. Uma moça quase sem ambições, quase. O gosto de vinho molhava a vida. Caranguejos, almas analógicas e almas digitais dançavam o som dos zumbis com uma nação de entidades sampleadas. Noite de desassossego, de vulnerabilidades e de risos imersos num mar de força. A pressa, o resfriado e a repulsa de gente, foram embora às carreiras. Essa noite eternizada no presente agarrou o tempo pelos cabelos, e o convidou para uma festa descombinada, de poucos. A menina descosturava o mundo, puxava linhas remotas e metia agulhas no horizonte. As forças daquela noite não cabiam no seu corpo que dançava. Ela não sabia correr, mas dançava arrebatada, inocente e maliciosa. Como o vento meio frio que açoitava a cidade adormecida, ela desmanchava-se em mil linhas e surgia de novo em desdobros carnais.

Maicon Barbosa

sábado, 4 de setembro de 2010

Quem é ela?

Nunca soube lidar direito com a solidão. Ela sempre me passa rasteira e me coloca a verter rios de lágrimas que não são molhadas. Ao mesmo tempo, ela me deixa forte, mas tão forte, que sem ela eu não teria vivido. Que mulher encantadora é ela, a solidão! Nunca se sabe de que lado da cama ela vai acordar, com que rosto ela vai amanhecer. Será que vou amá-la ou odiá-la amanhã? Que vestes encobrirão seu corpo trêmulo? Quais serão as ilusões que sua boca carnal me fará acreditar? Quando a provo, não sei distinguir o doce do amargo, nem o azedo do sal. Minha língua enlouquece nesse corpo fugidio. Seus mistérios são tantos que não cabem num só palavra. Outra vez, ela me faz estremecer toda. Quando penso que a conheço, pelo menos um pouquinho, ela me esbofeteia com as costas da mão, me violenta de todo jeito e me deixa mulher. Nos damos bem. Seu ar de indiferença, que faz pouco caso de tudo, apaixona. Que horas vais me largar? Quando é que vens me fazer? Ela endiabra a vida de leveza e de torpor.

Ana Laura Navegueiro