YON
domingo, 27 de janeiro de 2008
Divagações de uma manhã de domingo
YON
sábado, 26 de janeiro de 2008
Pensamento e algumas contradições

Linearidade argumentativa, coesão, encadeamento lógico, coerência, precisão lingüística, racionalização dos conteúdos; são algumas máximas frequentemente enunciadas e associadas – quase que automaticamente – às maneiras de pensamento. Aqui estamos nós, diante do suposto maior patrimônio da civilização: o “pensamento racional”. Essa perspicaz junção moralizante que nos amordaça, disfarçada de redundância!
Parece que a necessidade de ordenar as coisas se alastra e reformula-se com uma rapidez assombrosa. Desde que as bases da racionalidade começaram a ser lançadas – mais especificamente, porém não unicamente, nos momentos iluministas que não se prendem a uma determinada data ou lugar – a vida humana tem se orientado por valores transcendentes que passaram a direcionar toda a existência, delimitando rigorosamente as espacialidades permissíveis, as intensidades saudáveis, as maneiras corretas, as quantidades desejáveis, as temporalidades adequadas, os produtos eficientes... Os dogmas racionais, infalíveis na missão de modelar imponentes e destemidos seres do conhecimento verdadeiro, incorporam novas revitalizações na contemporaneidade e continuam aliciando multidões de “fiéis céticos”.
A Lógica, com suas diversas aplicabilidades, se transformou – ou provavelmente sempre teve essa função – na grande autoridade que determina quais são os padrões aceitáveis de vida. É como se toda a existência, necessariamente, precisasse ser lógica, racional, planejada e organizada. A busca estafante da Ciência por leis universais dos fenômenos, sejam eles objetivos ou subjetivos, tem produzido explicacionismos que, ilusoriamente, ambicionam demonstrar a verdade de uma coisa ou acontecimento através do estabelecimento de sistemas teoricamente previsíveis e imutáveis, que funcionariam segundo regras específicas.
O repúdio extremado às contradições, em suas muitas possibilidades de manifestação, funciona como uma espécie de concretização dessa normatização do pensamento. É perceptível um certo consenso proibitivo implícito, presentes em diversos ordenamentos humanos, que atua condenando as quebras e desvios nas/das seqüência lógicas discursivas, formais ou não. Se alguém fala de uma coisa de certa forma, parece ficar obrigado a manter aquela mesma idéia por um tempo sem fim, tudo em nome da intocável coerência suprema. É como se, ao emitirmos determinada fala, estivéssemos fazendo uma promessa oculta de não contrariar aquelas palavras futuramente. A aversão àquilo que expressa a diferença e suas pluralizações, ossifica seres hierarquizados, serializados e tristes, que não desejam nada mais que a ordem e o poder.
Esse processo que evita as manifestações não lineares que jorraram e impelem para várias direções, articula-se de forma a impedir a vazão desejante singularizada. Mas os ímpetos criativos, alegres, sempre proliferáveis, podem sim implodir essas atmosferas conformativas que fabricam subjetividades mórbidas, descoladas das potências acíclicas de uma vida não transcendente, e estender outros solos, sempre móveis, onduláveis. O pensamento pode afirmar outras posições para além da cristalização lógico-racional das coesões demasiadas. É possível devir a diferença, reinventar relações, rearranjar temporalidades e criar territorialidades. As atividades-pensamento podem funcionar plasticamente, de maneiras moduláveis, desligado-se dos ideais de forma, de perfeição, das dialéticas sempre cíclicas, e se abrir às efemeridades desejantes fortuitas, acidentais, metamorfoseando-se incessantemente, espalhando/agregando partículas dos mais inimagináveis territórios existenciais.
quarta-feira, 21 de novembro de 2007
Conversas acadêmicas

- Que bom que você se interessou pelas aulas! Fico feliz em ver que leu os textos realmente. Mas você não compreendeu direito algumas coisas. Ele efetivamente situa-se na tradição dialética. Isso está muito claro. Quase todos os comentadores dele escrevem isso.
sexta-feira, 5 de outubro de 2007
sexta-feira, 21 de setembro de 2007
O consumismo nosso de cada dia...

As intermináveis discussões em relação às alterações ambientais que vêm ocorrendo no planeta têm se intensificado cada vez mais por todos os lugares, principalmente nos meios de comunicação. Em decorrência de catástrofes ambientais que causam prejuízos incalculáveis, vitimando milhares de pessoas, governantes, o setor privado, ONGs e outras organizações, estão produzindo discursos de alerta e preocupação com a situação ecológica do planeta. Diversas reuniões entre líderes políticos de vários países vêm sendo realizadas há algum tempo, com o pretexto de discutir soluções para as mudanças bruscas na natureza, que vão desde a escassez de recursos minerais, vegetais, e hídricos, até mutações climáticas que ameaçam a vida humana na terra.
Entretanto, em praticamente todas essas discussões, um aspecto de absurda relevância não recebe nenhum destaque: o consumismo atual. A lógica do consumo exacerbado está presente em dimensões da vida como a saúde, a sexualidade, a família, a religião, a educação, a alimentação, a higiene, a estética, a arte, a ciência, o laser, as relações sociais, entre inúmeras outras, ou seja, quase tudo está cercado pelos apelos incansáveis de consumo: “compre”, “tenha”, “possua”! É como se o fato de consumir bens – materiais ou imateriais – constantemente fosse a fórmula mágica da felicidade.
Esse mesmo consumismo que nos proporciona “qualidade de vida” aparenta ser um dos elementos centrais nos problemas ecológicos mundiais. Os processos de produção em série, de produtos com vida útil cada vez menor – o que exige uma continua substituição, uma eterna compra e recompra – utilizam-se de uma gigantesca quantidade de elementos retirados dos meios minerais, vegetais, animais e humanos, já que a mão-de-obra é considerada como um mero instrumento de fabricação de coisas. Mais para mostrar que estão fazendo algo em relação a esse processo de extinção das formas de vida, algumas “super-empresas”, que se dizem ecologicamente corretas, colocam selos em determinados produtos que indicam: “responsabilidade social e ambiental”. Mas será que isso não seria apenas mais um oportunismo estratégico para aumento das vendas e enobrecimento da marca que aparece em destaque na embalagem daqueles produtos?
Parece que não se trata de discutirmos apenas taxas de redução de poluentes ou outras medidas superficiais. A questão parece ser: será que se não houver uma reinvenção dos modos de vida e um repensar sobre as exorbitantes relações de consumo e suas implicações pessoais, sociais, ambientais, econômicas, éticas e políticas, existe possibilidade de continuidade da vida nesse planeta-mercado?
Essa relação entre forma de organização econômica voltada unicamente para o consumo e as mutações corrosivas nos sistemas ecológicos, não é nenhuma nova descoberta, ou um fenômeno de difícil visibilidade. É uma das mais obvias constatações. O problema é que quase sempre todas as discussões atuais sobre esse assunto centram-se em pequenas medidas paliativas, que são praticamente insignificantes diante de um processo de extinção tão vertiginosos, e nunca focam as complicações que a forma construída de mundo capitalista-consumista traz para a vida em todas as suas esferas. Será que para vivermos precisamos consumir coisas industrializadas o tempo todo?
Maicon Barbosa
terça-feira, 21 de agosto de 2007
Quando a fuga foge
Que a procura pelo descanso é interrompida
por golpes vindos de todos os lados.
Com as mais enlouquecedoras forças, formas.
O chão aparenta ser o amigo mais intimo, confiável.
Mesmo assim, levanto-me.
Com o ar que resta nos pulmões, corro.
Carreira apressada, tropeçada, em direção a um muro
encantadoramente transparente.
Que não esconde luzes nem coisa alguma,
mas comprime insuportavelmente o corpo.
Sem unhas e força, agarro-me a ele.
Inicia-se uma subida lenta, fugaz, veloz, utópica...
Sofrimento e choro,
grito e finitude momentânea de tudo.
Escalada que corta a carne,
perfura a pele, agride absurdamente...
O topo está a ponto de me alcançar!
É na queda que ele inunda, afogando-me.
Sangro...
Agonizo à beira da vida.
Outra vez colado ao companheiro de longa data.
Que agora parece mais rígido, sólido, intransponível...
Há dias que as fugas são mal-sucedidas,
que os cães descobrem os rastros,
que o túnel turva, fica sem oxigênio.
Há dias que continuarão a fabricar algo
diferente da alegria em sua diferença de tudo.
Maicon B. S.
terça-feira, 24 de julho de 2007
Manifestos pós alguma coisa...

Apesar de muitas instituições partidárias constituírem diversos movimentos sociais, isso não significa necessariamente que toda manifestação coletiva tenha caráter partidário. A expressão desejante que aflora nesses acontecimentos não precisa estar vinculada a uma instituição com cadeias hierárquicas bem delimitadas. A legitimidade das manifestações está justamente no fato de que pessoas estão exercendo uma vontade convergente que não precisa de líderes suspensos para determinar o curso das coisas.
Existem alguns defensores da ordem que tentam estabelecer uma ligação causal e indissociável entre protestos resistentes e baixas “condições econômico-sociais”, se é que podemos usar tais termos. É como se os movimentos sociais de insatisfação com a ordem ocidental vigente só ocorressem nos lugares em que o perverso capitalismo ainda não realizou todos os seus milagres. No entanto, a revolta contra as formas capitalísticas de gerenciamento da vida, que operam em esferas materiais, desejantes, relacionais, entre outras, têm inundado muitos ambientes civilizados e superdesenvolvidos.
Os protestos contra o G8, que aconteceram em Rostock, na Alemanha, em Junho de 2007 (foto acima), é um nítido exemplo de que mesmo em sociedades conceituadas como “Primeiro Mundo”, pseudo-detentoras de um alto nível de “qualidade de vida”, muita gente anda se engasgando com as guloseimas fast-food que esse mercado de andróides empurra garganta “abaixo”! Obviamente a mídia de massa cria outros discursos em cima desses acontecimentos que acabam sustentando um imaginário centrado na periculosidade e violência dos movimentos.
Mas, independentemente da forma com que alguns veículos midiáticos focalizam certos acontecimentos coletivos desejantes, os movimentos resistentes em lugares públicos vão eclodindo com intensidades crescentes e densidades que aumentam gradualmente. Essas formas de protestos parecem ser uma das mais eficazes maneiras de "guerrear" contra a opressividade das máquinas de produção de determinados sentidos, que estruturam toda uma lógica de produção da necessidade de consumo, e que criam um desejo pela possessão de bens totalmente supérfluos e de pessoas-mercadorias, já que tudo – inclusive a vida humana – têm se transformado em produtos compráveis, consumíveis e descartáveis.
sexta-feira, 20 de julho de 2007
É A VIDA

Sair um pouco de si, da mente corriqueira, rotineira, cotidiana e previsível.
Sair um pouco do mundano, do conhecido, do que se dar por certo e do que se tem como perto.
A cidadezinha, aquela pequena cidade à qual se comparam os bairros das grandes metrópoles ou as vilas, onde todos sabem da vida de todos e ninguém presta atenção na própria.
Onde quase nada nunca acontece e quando acontece vira assunto para uma semana inteira.
Lugar de velhos aposentados ou vagabundos jogarem dominó, e donas de casa desocupadas assistirem novelas e fofocar nas horas vagas.
Provinciano, paroquiano, comum simples, fácil e entediante.Sim, tédio.
A melhor definição do normal e da normalidade, da razão e da racionalidade.
Aposentadoria e dominó.
Donas de casa, fofocas, novelas...
Províncias, paróquias e tédio...
É a vida...
Yon Macedo
quinta-feira, 19 de julho de 2007
O Estado Democrático Transcendente.

segunda-feira, 16 de julho de 2007
MARTA

Marta perdeu-se nos seus pensamentos
E entrou cada vez mais dentro de si
As pessoas chamavam, os pais choravam
O irmão se debatia
Marta nada sentia
E a cada dia, aumentava o desespero
Tal como gelo que se derrete
Tal como água que se evapora
A antiga Marta foi-se embora
Para algum lugar que talvez nem exista
E por mais que a família insista
Ela parece que não voltará
Marta abre os olhos
Um sorriso estranho cobri-lhe a face
Todos fazem festa
O irmão pula de alegria
Sem jamais prever a agonia, deste trágico despertar
Marta desconhece a todos
Palavras sem nexo são balbuciadas
Os olhos perdem –se em alguma imensidão
Ela não voltou, não pode ter voltado
O olhar dos familiares
Agora revoltados
E a felicidade sinistra da moça
Um ar de santa virgem mistura-se a de meretriz
Não fui culpa dela, não foi ela quem quis...
YON, 12/07/2007
