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sábado, 4 de setembro de 2010

Quem é ela?

Nunca soube lidar direito com a solidão. Ela sempre me passa rasteira e me coloca a verter rios de lágrimas que não são molhadas. Ao mesmo tempo, ela me deixa forte, mas tão forte, que sem ela eu não teria vivido. Que mulher encantadora é ela, a solidão! Nunca se sabe de que lado da cama ela vai acordar, com que rosto ela vai amanhecer. Será que vou amá-la ou odiá-la amanhã? Que vestes encobrirão seu corpo trêmulo? Quais serão as ilusões que sua boca carnal me fará acreditar? Quando a provo, não sei distinguir o doce do amargo, nem o azedo do sal. Minha língua enlouquece nesse corpo fugidio. Seus mistérios são tantos que não cabem num só palavra. Outra vez, ela me faz estremecer toda. Quando penso que a conheço, pelo menos um pouquinho, ela me esbofeteia com as costas da mão, me violenta de todo jeito e me deixa mulher. Nos damos bem. Seu ar de indiferença, que faz pouco caso de tudo, apaixona. Que horas vais me largar? Quando é que vens me fazer? Ela endiabra a vida de leveza e de torpor.

Ana Laura Navegueiro

domingo, 18 de julho de 2010

Diálogo Diáfono

Onde está o que procuro, àquela idéia, aquele texto, aquela mulher, aquele deus? Onde está o remédio para curar o meu mal, a minha ânsia, o meu desejo? O que fizeram se já existiu, quando desvelará se ainda paira, quem criará se planejam, porque eu estou só e aguardando num terminal rodoviário aonde me chega um filosofo, todos o são, todos se metem a ser e ninguém sabe porra nenhuma, não é verdade? O que é verdade? Pergunto, não tinha ouvido ele se dirigir a mim, não estou a fim de papo, mas você me parece culto! E cultura tem lá aparência filho da peste? Vamos conversar insiste por fim, e eu aceito, não me venha com papo de acadêmico que se senta atrás de escrivaninha para viajar, falemos coisas concretas, o que é o concreto? Ele indaga, Sei lá esse papo já está problemático, a minha busca é concreta meu senhor, você parece bem inflexível, rebate o meu aparteante, ele conversa comigo na velocidade do meu olhar, sei como é isso, não, o senhor não sabe, repondo,mais parece um professor, professores não conhecem, alfineto, muita gente antes de você se perguntou, insiste o barbudo, e eu lá com isso?Neste momento, passa um menino vendendo água mineral num isopor, Tenho a minha própria sede meu caro, só eu posso saciá-la, há de concordar comigo, alfineto de novo, mas quando o caminho está aberto tudo se torna mais fácil, pode ser, pra quem nasce pra seguir, meu senhor, eu, dentro de mim, algo quer tudo novo ou não quer nada, mas verdades de segunda mão não vão me satisfazer, e você, pergunta ele, já começou a construir a sua própria verdade ? Não pude responder, o ônibus dele iria partir,melhor seria se tivesse perdido ? Seu e –mail por favor, você tem Orkut, poderemos continuar este colóquio que, de ante mão sei, não levará a lugar algum, tenho sim anotou rápido tudo e seguiu para dentro do ônibus, La se foi meu manual de filosofia do segundo grau, antes tivesse parado nele.Logo que o ônibus saiu, caiu uma tempestade diluviana ...mas abro o not book e lá está ele a sugerir leituras, será possível, eu não vou ler essas merdas de jeito nenhum, não vou perder meu tempo caríssimo sir, sei que tenho pouco, ele insiste, interroga-me, espreita-me , nem sei porque estou levando isso a sério, ele continua a escreve-me: você tem potencial, vi nos seus olhos, que porra você é , vem o meu aparte via MSN, você é cigano, macumbeiro ou o que ? Não, nada disso, sou professor, respondeu, eu estou determinado a não me instruir, tento convencê-lo, embora perceba de pronto a fraqueza do meu argumento, afinal, já tinha embebido minha mente na maldita filosofia, e agora não saberia dizer se foi congênita ou influenciada a minha enfermidade, realmente tenho curiosidade para saber a que conclusões esses caras chegaram, eu digo, e digo mais, aliás: eles não chegaram a nenhuma conclusão e o mundo, minha vida e a de todos não está um mar de rosas, mãe das ciências? Que balela, a ciência parece ser edipiniana, comeu sua própria mãezinha, e ficam vocês aparando os coitados que, atraídos pela falta quase completa de concorrentes, preenchem de forma pitoresca as salas de aula das universidades, cultuando a mãe comida... Ele fica calado. Não rebate, não contra argumenta, não se expressa. Finalmente vai sumir e deixar-me na minha zona de conforto, finalmente consegui me livrar dele. Engano. Ele vai buscar-me.
Yon

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Agulha menor

Hoje, estou quase triste. Mas, nem tristeza sinto. Depois de alguns poucos instantes de euforia atônita, apaixonada por algumas vozes vindas da parede, atirei-me ao chão. Desejava, como se fosse o último dos desejo, colar minha pele ao solo quase frio, branco e meio sujo. Fiquei deitada ali durante um tempo que não sei medir. Ainda não sabia o que queria sentir. Talvez, fosse apenas aquele vazio pleno mesmo. Pleno por um instante minúsculo. As vozes continuavam me atiçando. Ouviam-se risos de gozo. Inerte no chão, eu olhava o quarto de outro ângulo. Tudo ganhava um cheiro imediato. O vazio pleno queria ir-se. Coisas vinham chegando aos montes e disparavam o peito. Longe, longe de tudo eu estava. E só me interessava em olhar, encantada e besta, o teto, as paredes e os poucos móveis que ao meu redor se punham. O chão havia se grudado de tal forma ao meu corpo, que ambos sentiam-se o mesmo, durante o movimento ínfimo da menor agulha do relógio desregulado da vida.


Ana Laura Navegueiro

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Fragmentos de loucura 1

Era setembro. Tive um daqueles ataques existencialistas que o efeito placebo de Deus não consegue evitar.
Estava afogando-me nos encantos da fada verde, tal qual Van Gogh, Baudelaire e Crowley.
Falaram que eu estava doido, que não discernia mais dentro da lógica maniqueísta. Insinuaram que eu estava indo contra os princípios cristãos. (Aos Diabos com eles, os princípios!)
Minha química cerebral alterara-se sensivelmente com excessos e abstinências de serotonina.
Um dia, acordei. Neste, embora fosse um dia de jogo pela “sobrevivência”, não me levantei. Permaneci imóvel, inerte, sonolento e vagabundo... Poeira enfeitava a minha casa dando um tom diferente nos móveis. Contas acumulavam-se embaixo da porta. Em mim, não havia ninguém disposto a pagá-las. Eu só via o oposto. Minha cama estava de costas para a entrada do quarto.
Havia no chão partes de livros que eu tentara queimar na véspera, Comte, Hans Kelsen, Darwin e Herbert Spencer.
Havia em mim a esquizofrenia de pensar os opostos como iguais.
Havia no ar o anacronismo saudoso dos meus contemporâneos românticos.
O espaço em meu entorno era a louca dança dos conceitos na atmosfera...

Yon

Psicologia x Cazuza


http://tatieller.multiply.com/journal/item/5/5

LEIAM O TEXTO DO LINK ACIMA...

Quando recebi a carta dessa psicóloga na minha caixa de e-mail, logo vi que era mais uma maniqueista , julgando o que é de Deus e o que não é. Do mesmo jeito que foi a historia do devasso Cazuza, poderia ter sido a história do devasso Davi (sim, Davi o da Bíblia). Como seria bom para os pseudo-crentes ver Davi na telona "esbagaçando" a mulher de Urias e dizer: Nossa como foi errônea a educação desse rei!
Cazuza foi um dos maiores poetas da sua geração. Sua indignação com o sistema falido que aí está ( e quando digo sistema incluo a IGREJA) era de uma crueza e veracidade maior do que muitos ditos justos por aí. Quando é que esses pseudo-salvos vão entender que Deus não se deixa subjugar? Deus não é obra literária e nem musical para que Homens detenham seu direito autoral. Agradeço a Ele todos os dias por Ele não pensar como o Homem; por não pensar como essa psicologa. Ligo a TV e vejo os tele-pastores, os auto-intitulados apóstolos (os sedentos por "almas" que tenham grana no bolso) cada dia com uma nova "unção", um novo projeto de posse do bairro, da cidade, do país. Todo ano, é o ano de alguma coisa “especial': o ano de Elias, de José, de Eliseu, das portas abertas...até os locais de oferendas das religiões afro-brasileiras são disputados palmo a palmo com os tais atos proféticos. É uma "enterração" de estaca que não se vê nem em filme de vampiros.
São Pessoas como essa psicologa, que a cada dia afastam dos templos os que poderiam realmente servir a Deus. Só restam em seus falidos bancos, em sua maioria, os hipócritas, os auto-justificados, os que voltam-se para sua família e dizem: “Se não vierem comigo, vão pocar nos infernos”. Triste realidade essa a da igreja hoje em dia. Tem apenas 500 anos, mas já fez tanta merda. O mais engraçado de tudo é isso...rsrsr. Quer dizer que antes de Lutero ter descoberto a “pólvora protestante” todo o mundo tinha sido destinado ao fogo eterno?
As intenções de Lutero, além de políticas, eram totalmente sexuais. Coincidentemente casou com uma freira após a saída da igreja. Casou no papel...porque debaixo da batina já estava “rolando” há muito tempo.

Voltando a Cazuza, que por sua sinceridade, era mais profeta que muito profeta por aí. Deixo aqui um trecho da ultima música, do último lado, do último disco dele:

“Tem gente que recebe de Deus quando canta tem gente que canta procurando Deus...
Eu sou assim, com minha voz desafinada... Peço a Deus que me perdoe...no camarim.”
(Quando Eu estiver Cantando – Cazuza)

Sim Cazuza, creio na misericórdia de Deus na sua vida, mais do que na vida dos fariseus que aplaudem a carta dessa psicologa.

Ela, falando da sua vida assim, me lembra uma passagem bíblica em que os fariseus batiam no peito e diziam: «Obrigado, Senhor, porque não sou como ele, ela ou eles. Tenho a sorte de não pertencer aquela família, pais ou raça; é bom para mim não frequentar certas companhias ou grupos». (LC 18:3)
Sim, cara psicologa, a senhora precisa rever seus valores. E por falar em valores: poste aqui o endereço do seu consultório para que eu e outros adoradores da Verdade não sentemos por engano no seu divã fascista.

W. Santos


parvo

Uma ressaca áspera toma tudo. Soluços de um cachorro de rua meio contente, meio disperso, meio desaprendido. Demasiado inesperado. Ele não consegue sentir alegria por muito tempo. Nem tristeza. É um poço de oscilação. Os outros bichos da noite anterior não o reconhecem. Tanto faz. Ele está outra vez rente ao limbo. As pernas e patas pesam e quase estacionam no pegajoso ar desse crepúsculo sem fim. Ainda há gente passando por perto. Mas que importância tem isso? As orquídeas infestam o mundo agora. Elas bailam em cima de uma calçada enrugada. Cão obstinado e incerto. Quem poderia acreditar ao menos numa palavra sua? Os olhos nem sempre pedem algo. Tem dias que eles brincam e gritam até cansar daquele mundo de fadas e ogros. É carnaval. Porém, as ruas pelas quais ele circula estão desertas. Ele sabe que não é muito suportável, e por isso prefere vagar.

Maicon Barbosa