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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

praguejar

Proliferem sem parar, pragas! Os nomes não as podem conter. E os números não as podem contar. Sigam e façam o que é preciso. Continuem enchendo o mundo. Os higienistas são deveras ralos e fracos. As margens precisam de vocês, pragas! Muitas destruições são necessárias. E vocês sempre resistem. Cismaram que querem viver. Os escombros se movimentam continuamente. Pragas absurdas... vocês que sentem o gosto de sangue nas bocas feridas, e ácido nas veias. Pragas! Que se movem feito nuvens subterrâneas. E que despedaçam as ordens. Que bom, vocês ainda existem! Nunca vão parar enquanto as células se multiplicarem. Não precisam de memória, etiquetas ou estabilidade. Areia no vento. Inseticidas, Napalms, propagandas, fármacos, homens de branco: nada pode parar a proliferação. Vocês nunca tiveram um alvo só. Nem hierarquia. Nem sossego. Mas é isso mesmo. Destroçam as homeostases. Força virulenta da escória, do lixo meio silencioso. Que arrasem tudo! Tudo mesmo. Dizem que é delírio. Que seja, também! Pragas... pragas nervosas. Respirem a lucidez da selvageria. Escancarem de vez as portas desse céu feio e grande. E entupa-lhe os bueiros por onde a vida escorre.

gafanhotos verdes

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Há muito

Há muito que as grandes datas não me dizem nada!
Sinto umas coisas meio estranhas demais nesses momentos
Um certo veneno me atinge, me embriaga
Deixa-me meio dormente, meio sonolenta
Como se afundasse num mar de algodão indelevelmente branco
Como se rolasse num campo de rosas inertes, que não me arranham, nem cheiram
Acho que sou transportada para outras luas, desertas
Habitadas apenas pelo vácuo e por alguns ecos
Hoje é uma desses dias
Fui arrebatada para o longe, há muito
Não existe decisão para essas coisas
Sou envolvida por uma névoa leve, entorpecente e sem cor
Que me invade o corpo todo
Essas datas importantes
E dias de fuga e solidão...


Ana Laura Navegueiro

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Eu não tenho nada a dizer...
No meu íntimo, mil terremotos assolam o meu ser ...Dizem que isso é doença
Eu prefiro acreditar que não é nada
é simplesmente eu ...
Eu nú
Eu despido de mim mesmo
E não tenho nada a dizer
Os poetas querem chamar atenção para si
E não conseguem se enxergar
Eu não me vejo
Como falar de mim se não sei quem sou ??
Seria muita audácia, ou antes, muita hipocrisia
Mas me atrevo a escrever
Quero compartilhar minha ignorância
Quero sinalizar que estou perdido
E não confio em ninguém ...

domingo, 22 de novembro de 2009

Um pouco demais

Queria mesmo era parar a roda e respirar

Por os pés nessa água turva e arredia

Ver o vestido que agora se disfarça de tristeza

Dançando no sopro

Meu corpo se entrega na imensidão da sutiliza

Dissolvo-me e sinto a pele se romper levemente, sem dor

Abraço com força aquilo que braço algum pode conter

E me lanço no abismo encantador que desliza à minha frente

Chegou a hora de partir

Chegou a hora desconhecida da solidão

Quero as estradas desse mundo

Aquelas que esperam ser tocadas por mãos delicadas

E sem costume no trabalho pesado

O vento, o vestido e o choro

O ar queima os pulmões dessa recém-nascida

Um pouco sozinha demais

Um pouco triste demais

Um pouco perdida demais

E um pouco viva, ainda


Ana Laura Navegueiro

domingo, 13 de setembro de 2009

despedidas de desterro

Cansei dos venenos de sempre
Quero ir pra onde ninguém saiba a cor do meu cabelo
Desprezo o gosto que não me engole, e cospe
A beleza que não arrisca está morta, há muito
Hoje é sempre
Sinto meu corpo estranho nesse banheiro da vida
Limpo demais pro meu gosto
Prefiro o limbo e o raso

O papel da farmácia já rasgou faz tempo
Cansei das mortes de sempre
Quero ir pra onde o ar tem um cheiro desconhecido
Minha cor é a cinza, agora
Mulher ao mar!
Caiu no vento!
Não me atirem, nada, nada
Quero a leveza, o solto e o salto
Diafragmas cantam a poeira do arraso
Minha poeira impura e frêmita que espalha o chão
Cansei dos remédios de sempre e das dores de nunca

Ana Laura Navegueiro

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Cicuta

O mundo vai se alargando

Tudo se cala

Aperto... aperto...

Vertigem

Vou ficando menor

A vida parou por um segundo,

Talvez dois

A noite segue silenciosa

Um falso poeta está sem sono

E sente coisas estranhas que apertam o peito

Anódina melancolia!

Febre e inércia de gente

O corpo pesa insuportavelmente e cai

As palavras são as minhas únicas companheiras nessa imensidão

Vou dançar com elas, pois a música já transborda tudo

Hoje, é uma dança lenta, triste e misteriosa

Vagarosidade de agora e despretensão

Ângulos do caos de dentro


Maicon Barbosa